Bate-papo com MIÚCHA sobre o CD '40 anos'


Vivíamos o meio da década de 80 quando o produtor Wilson Souto, então uma das mentes por trás da gravadora Continental, chegou com uma proposta inusitada para Miúcha: gravar um disco com total liberdade, desde a escolha do repertório até os músicos e o clima dos arranjos. 

A cantora, que já queria fazer um trabalho para revirar o baú e também apresentar novidades, aceitou na mesma hora e começou um trabalho duradouro de pesquisa e gravação, que incluiu participações de músicos brilhantes, desde seu irmão Chico Buarque até Albert Dailey, e uma viagem a Cuba. Alguns anos e muito trabalho depois, nasceu “Miúcha” (1988), um disco que a própria cantora considera único e muito importante para sua carreira.

Hoje, em homenagem aos 40 anos na ativa completados pela artista, temos a honra de relançar o lendário disco em um CD mais que especial, com todo os textos e as fotos do encarte original. A reedição já está nas lojas físicas e digitais e também nos apps de streaming. Garanta a sua na Saraiva: http://bit.ly/1NTEokI

Se já naquela época Miúcha dizia: “nem sei se me acontecerá outro disco como este, mesmo porque já não se fazem muitos discos assim”; hoje, a cantora se emociona e fica ainda mais surpresa com tudo que se relaciona ao álbum. E a própria Miúcha explica por que na entrevista que fizemos com ela e que você lê a primeira parte abaixo!

Bom, Miúcha: nesses 40 anos de carreira, você considera o disco de 88 um dos seus discos mais importantes?
Sim, esse é um disco único que há muito tempo queria relançar, mas que não era possível por uma série de confusões. Na época, o Wilson Souto me chamou para fazer o álbum e me deu toda a liberdade para produzi-lo. Porém, ele saiu da gravadora antes de eu acabar o álbum e mais tarde a Warner comprou a Continental. Então o disco ficou meio enterrado no passado, apesar de ser um trabalho deslumbrante, o único que tenho com uma orquestra de verdade em estúdio. Ter uma orquestra era raríssimo naquela época, já que pequenos conjuntos, eletrônicos, essas coisas, substituíam os músicos.

Pois é, só de ler a ficha técnica já dá para levar um susto: são muitos nomes importantes da música brasileira… Sim, há muita gente incrível mesmo. Tem o Chiquinho do Acordeom, por exemplo, que é considerado o maior acordeonista da história e que já morreu há algum tempo. Acho que talvez esse disco tenha sido a última gravação dele em vida. E, no geral, são participações especialíssimas. Minha banda, também, foi o top dos tops. O Luiz Claudio Ramos, o Cristovão Bastos e o Helvius Vilela nos arranjos, o Wilson das Neves, o Franklin na fauta. Tivemos muita sorte dessas pessoas terem topado nosso convite.

No texto do encarte você comenta ter demorado mais de 2 anos para gravar tudo. Como foi esse processo?
Ah, aconteceu muita coisa. Teve a saída do Wilson Souto no meio de tudo, mas começamos indo a Cuba para gravar com o Pablo Milanés, meio que fazendo as coisas ao contrário, e depois seguimos trabalhando aqui, com algumas pausas. No começo mesmo, fui parando de fazer shows aos poucos e me concentrando no que seria o álbum. As ideias surgiram e tudo foi fluindo bem. Tinha que ter uma orquestra, ter arranjos tanto do Cristovão Bastos quanto do Luiz Cláadio Ramos e do Helvius Vilela, grandes amigos meus, que fizeram um trabalho lindíssimo. O Luiz Cláudio me disse, outro dia, que foi um dos discos mais importantes pra ele como arranjador, que ele pode experimentar muitas coisas diferentes. Um disco fundamental pra mim e para muitas outras pessoas.

Sim, são muitos músicos, cantores, compositores presentes. De todos, há algum participante que vem fácil à mente como destaque?
São muitos, mas acho que dois que vêm fácil à mente são o Guinga e o Paulinho Pinheiro. Cinco músicas do álbum têm eles como autores e o meu próprio contato com a música do Paulinho e do Guinga foi um verdadeiro choque para mim. Um “susto musical”.

Eu liguei para o Paulinho e disse: “como eu nunca gravei uma música de você e estou preparando um disco, com novo material, vou querer gravar”. E foi muito engraçado porque ele disse que fazia tempo que uma cantora não o pedia músicas, e ele tinha coisas inéditas. E as faixas do Guinga e do Paulinho eram tão interessantes, poderia dizer até que eram estranhas, um jeito único de compor. Muito incrível, muito mesmo. Porque as harmonias e as composições do Guinga, por exemplo, são surpreendentes, elas começam de um jeito, aí continuam de outro, algumas têm três partes, outras são diferentes. E todas super intensas, com construção musical maravilhosa, harmonias incríveis. Foi um choque, e uma experiência de outro mundo. E foi só uma das coisas incríveis que aconteceram nessa época.

As faixas compostas por Guinga e Paulo Cesar Pinheiro, o Paulinho, são “Chorando As Mágoas”, “Por Gratidão”, “Non Sense”, “Porto de Araújo” e “Fonte Abandonada”, todas disponíveis nos apps de streaming e nas lojas digitais.


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